A voz que ecoou, do lado de fora da casa, era tão ruída quando sua estrutura velha, repleta de cupins famintos, comendo, isto é, corroendo cada centímetro de suas vergas de madeira, antigas, a propósito, prontas para romper-se ao meio.

De súbito e sem nem perceberem que tinham feito, ambos correram desajeitadamente para o lado que estava mais escuro, tentando achar, com o embalo, um lugar seguro, ou menos perigoso, onde pudessem ficar escondidos para poder atacá-lo, inclusive.

– MEU DEUS! – Rogues sussurrou acuradamente cada letra do que dissera; depois pôs a mão na boca e verteu uma lágrima involuntariamente. Seu rosto ficou vermelho, de imediato, e ele viu a morte passando pela sua frente.

– XI! – a mão de Bedér tremia desesperada; seu dedo nem chegou a tocar à boca, mas Rogues entendeu que o amigo, como ele, pedia silêncio exaustivamente.

– QUEM ESTÁ AI? – não havia somente uma voz rouca e suja para eles temerem desesperados agora. A porta se havia aberto, e alguém odiosamente entrara, vasculhando violentamente tudo quanto era coisa no meio daquela casa, que já estava incrivelmente desmazelada.

Bedér e Rogues estavam sentados no canto mais escuro que havia naquele lugar. Ambos estavam com seus joelhos dobrados para cima, escondendo seus rostos, mas sem abaixarem as cabeças, é óbvio, eles não eram loucos de fazerem isso. Suas mãos seguravam as armas, que tremiam mais que suas máquinas de lavar roupas; elas estavam quebradas, por isso, quando se punham a funcionar, pareciam que iam, na realidade, voar, porque tremiam compulsivamente.

Os dois sem entreolhavam, vertendo lágrimas, que pareciam torneiras ligadas para lavar o chão daquela casa nojenta. Se o homem que andava por aquele piso escorregadio, com tanta gordura que tinha, os achasse ocasionalmente, certamente eles morreriam, porque carregou uma espingarda de cano duplo.

– Bedér – seus olhos fitaram o amigo, eram como buracos negros, porque com a pouca, nenhuma, luz daquele lugar terrível, não se podia ver nada mesmo. –, ele vai nos matar… – seu rosto fez uma horrenda careta, porque a angústia era muita, ele estava integralmente aterrorizado.

– NÃO! – a boca de Bedér gesticulou apenas, uma vez que não saiu som algum de seu interior. – Nós vamos acabar com ele antes; antes que tente nos matar como matou seja lá quem for. – ele inspirou. – Nossos corpos não serão jogados num rio. Ele nem vai conseguir nos tocar.

O homem ficou em silencio por um tempo, como se estivesse pensando que fora enganado por sua mente ou tivesse escutado o barulho dos ratos ou de algum animal que, involuntariamente, havia deixado entrar.

Os meninos não se moviam, pareciam pedras jogadas ali dentro ou um móvel qualquer, dos que estavam para se desmontar. Eles estavam esperando que o homem saísse pela porta torta, amarela, descascada e ruída, como da outra vez. Na verdade, era a única coisa que eles tinham para fazer naquele momento. Eles poderiam atacá-lo, ambos, mas isso poderia ser desastroso, completamente.

– Meu Deus… – Rogues sussurrou, não sabia o que fazer.

Um silêncio imenso e profundo tomou os ares da casa por um longo tempo, o que deixou os meninos terrificados, porque não sabiam se já dava para levantar e tentar fugir ou se deviam ficar parados, mudos, imóveis, para não alarmarem ninguém.

– Rogues – Bedér chamou o amigo, aos sussurros. –, acho que já podemos sair daqui. – o silêncio estava insuportável. Seria melhor se ouvissem os terríveis passos daquela “visita invasora”, mesmo sabendo que a visita invasora eram eles, descaradamente, eram eles.

– Beleza! – ele ainda falava com sopros. – Vamos. – Rogues se levantou, mas caiu, imediatamente, porque fora violentamente baleado no ombro, o que o fizera cair por decima das ferramentas vermelhas, largadas pelo chão da cozinha inteira.

– ROGUES?! – Bedér se levantou de súbito, olhando para o amigo e ao mesmo tempo para aquele homem de macacão vermelho, isto é, azul, mas completamente sujo de vermelho-sangue, como se ele tivesse matado uma cidade inteira, antes de voltar para casa. – MISERÁVEL! – Bedér tomou o machado que segurava, com mais força ainda, golpeando o homem na perna, porque, quando fora levantar o instrumento, não o pode fazer, de primeiro; era demasiado pesada.

– AH! – mas o homem caiu, de pronto, batendo a cabeça careca na porta enferrujada da geladeira. Depois que tomou um choque ligeiro e tremeu o seu corpo por um bocado, ele fez um “click” com a espingarda, para poder atirar em Bedér.

– UH! – e o machado, por mais pesado que fosse, cortou a metade esquerda do pescoço do homem, que, mesmo assim, conseguiu atirar no garoto; só que morreu, sem saber que fim o rapaz/assassino levou.

Bedér caiu precisamente do lado do corpo de Rogues, que ainda ofegava e sem conseguir se dar conta dos terríveis e recentes acontecimentos daquela noite absurda.

Rogues, você “tá” bem? – ele verificou o amigo, isto é, o seu ombro, rasgando o moletom preto para checar a ferida de um ângulo mais favorável. Quanto ao tiro que recebera no tronco, foi de raspão, ele devia agradecer muito, mas muito, a Deus, pelo livramento.

– Acho que posso me levantar, Bé… – Rogues se esforçou para ficar de pé, sem nem terminar de pronunciar o nome do amigo. O tiro não havia sido profundo; era drama em cima de drama, porque ele era um enorme dramático, um ator.

– Cara, o que foi isso que aconteceu com a gente? – perguntou Bedér, levantando o moletom colorido, para limpar o sangue que escorria de seu tronco magro.

– Eu não tenho a mínima ideia – Rogues segurava o ombro como se ele fosse cair de seu corpo. Se soltasse sua mão vermelha e molhada dali, certamente jamais poderia religar o membro. –, só sei que ainda estamos vivos, GRAÇAS A DEUS. – e tirou a mão a clavícula inacreditavelmente, elevando-as para agradecer a Deus por aquilo. – Vamos embora daqui, AGORA! – e andou alguns passos na direção da porta de madeira, que, se não abrisse por bem, seria chutada repetidamente.

– ESPERE! – Bedér segurou no seu ombro, bem no seu ombro ferido, querendo impedir o amigo e sair por aquela hora.

– AH!

– Desculpe!

– Meu ombro, seu IDIOTA!

– Vamos entrar lá no quarto – apontou com a cabeça na direção da fresta da posta azul-cerúleo. –, só ver o que tem lá dentro… – por pior coisa que acontecera com ambos, não parecia ter sido muito para fazer que Bedér, agora Bedér, sentisse vontade de sair às pressas daquele lugarzinho tosco. Eles haviam, de fato, trocado de posição.

– RÁPIDO! – Rogues passou pelo amigo, ficando diante da porta repleta de teias de aranha mortas.

Um rangido tomou a casa inteira, que fedia mais do que anteriormente.

– Quantas pessoas ele matou aqui dentro? Mil? – apesar da enorme escuridão e da inútil fraqueza das lanternas, cujo foco era muito, muito pequeno, eles podiam ver uma boa parte do chão do quarto, que tinha uma poça vermelho-sangue, com no mínimo dois ou três litros de líquido.

– Eu não acredito nisso… – Bedér abaixou a cabeça desalentado. Ele parecia não crer no que estava vendo diante de seus olhos marejados de medo, ódio, confusão e arrependimento.

– Isso só pode ser brincadeira… – Rogues entrou até o meio do aposento pequeno, se agachou, sem encostar os joelhos naquele chão ainda molhado e viscoso e pegou uma brocha grande, descabelada, que estava carregada daquela lama vermelha, que não tinha um fedor amargoso, como o que tem o sangue de qualquer pessoa por sobre a terra.

Ele olhou para o teto inconformado. Por um momento, nenhum deles pronunciou sequer uma palavra curta, porque estavam indignados.

Bedér entrou e foi para o fundo daquele quarto revelador. Ele olhou, mudo como estava, a parede direita, que, até então, lhe estava inteiramente escondida. Bedér olhou para ela repetidas vezes, sem dizer uma única palavra, nem uma, notando que metade dela estava pintada com a mesma cor que cobria o chão empapado daquele lugar arruinado.

– Rogues… – sua voz tremia mais do que anteriormente, quando um “assassino” lhes apontava um antigo rifle, pronto para matá-los muito, mas muito, cruelmente –…, isso não é sangue… – expirou odioso.

– Eu sei… – Rogues já estava prostrado por sobre o chão, nadando na poça vermelha e fria do quarto, como se estivesse por entre uma enxurrada de suas próprias lágrimas de arrependimento e abominação.

– Isso é tinta vermelha, MALDIÇÃO! – e esmurrou a parede, quebrando todas as suas falanges e fazendo cobrir de sangue, de sangue mesmo, os seu dedos tortos, roxos e doloridos.

            – Isso não é um vermelho qualquer, meu amigo… – Rogues já parecia delirar onde estava, talvez por não suportar a ideia de ter vivido o que vivera, vivera… –…, é tinta VERMELHO-SANGUE.

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