No meio da escuridão, Rogues e Bedér suavam copiosamente, orando com todas as forças que tinham, para que quem quer que estivesse com eles, pudesse rapidamente ir embora; eles arfavam intensamente, crendo por um momento que jamais sairiam dali.

A porta torta, amarela, descascada e ruída, bateu com tanta força na geladeira, ainda mais velha que ela, que, quando voltara, trancou-se imediatamente, fazendo voar poeira para uma parte expressiva da cozinha/matadouro, parecia um matadouro, de fato.

O som que fizera, quando fechou, apesar de alto, muito alto, não fora maior do que o do tom agudo, que irrompera ali; era como o de ferramentas de metal, pesadas, caindo de uma só vez no cimento queimado da cozinha velha; ele foi seguido de um outro enorme bater da porta, como se alguém estivesse saindo dali, se com sorte, com a sorte que tinham eles, para jamais retornar, NUNCA MAIS. Depois disso, um incrível silêncio tomou conta dos ares daquela casa, precisamente depois que a tranca fora fechada. Justamente por causa disso, eles ficaram com muito mais medo ainda.

– Rogues! – Bedér sussurrou.

– XI! – Rogues pôs o dedo na boca, pedido silêncio de novo. – Espera mais um minuto – olhou para os lados. –, vai que ainda tem mais gente…, ESPERA! – ele parecia estar mais agoniado, naquele instante, do que o próprio Bedér, que se cagava nas calças, ou quase isso.

Eles esperaram por um tempo curto, não ouviram mais nada, o que era bom, eles podiam fugir.

– Vamos sair daqui, JÁ! – Bedér correu para a porta, mas com passos pequenos de formiga; formigas que podiam andar muito rápido.

Rogues o seguiu fielmente, caminhando pelas mesmas pegadas do amigo.

– A porta… – ele rodou a maçaneta, inclusive, quase quebrando-a completamente. –…, “tá” trancada!

Quem quer que tivesse estado ali dentro, havia fechado as entradas da casa toda; parecia o então residente.

– E agora Bedér, o que nós vamos fazer? – ambos pareciam ter trocado de posição.

Bedér parecia muito, mas muito bondoso, como alguém que jamais faria mal a uma mosca. Mas quando se se tratasse de salvar sua pele, de sua família e de seus amigos, ele jamais mediria esforços, inclusive, ele mataria.

– NOS PREPARAR PARA O PIOR! – ele encheu os pulmões de ar, mas depois tossiu, quando engoliu a poeira que pairava no ar obscuro daquela casa.

– Que pior? – Rogues tinha no rosto uma expressão de dúvida, que era desesperadora. – MORRER? – ele apontou as beiras da boca, ambas para baixo, como se fosse a boca de um palhaço com depressão.

– Se você não percebeu, há sangue dentro daquele quarto e, sabe Deus, onde mais pode haver! – sua voz tremulava incessantemente, como se de dentro dele quisessem jorrar cachoeiras de águas salgadas. – E se ele for um ASSASSINO? Um PSICOPATA? – até então, Bedér estava olhado para o meio da porta velha, a principal, só que virou para ver o amigo, checar sua situação e mudar o que estava olhando. – Quando ele vier com a faca… – ele olhou para Rogues penetrantemente. –…, bem, não haverá tempo para ele pegar uma faca, você me entende?

– Sim, não podemos morrer… – Rogues engoliu o bolo de angústia que estava na sua garganta. – NÃO PODEMOS!

– Vamos pegar as facas que ele derrubou no chão da cozinha. – ambos saíram juntos, tão sincrônicos quanto os corvos ao redor do casebre.

Quando chegaram na cozinha, não andaram muito, a casa era um ovo… de codorna.

– Um assassino, sim, veja… – Bedér tomou pela mão um machado que estava coberto com o que parecia ser resquícios de sangue; mas que fora lavado recentemente, como se seja lá quem fosse quisesse que ele ficasse limpo.

– Todas as facas estão sujas ainda; ele as lavou muito mal, da mesma forma que “limpa” essa casa tosca.

– Se é que ele limpa ela… – e esfregou desdenhosamente, no moletom, as mãos sujas daquele vermelho-sangue completamente asqueroso.

– Para onde será que ele foi? – Rogues olhou aflitivamente para a porta torta, amarela, desbotada e ruída, tentando acercar-se de que ninguém chegaria por aquelas horas.

– Se ele voltou de lavar suas armas do crime, deve ter ido jogar o corpo, ou os corpos, em algum lugar lá por baixo, porque o quarto, pelo que vi, já está totalmente vazio, a não ser pela poça de sangue.

Por um instante, um silêncio tomara conta de tudo, eles não falavam nada, até que Bedér se pronunciou.

– Rogues, não temos como sair daqui, há um assassino lá fora, não sabemos do que ele é capaz e não podemos vacilar agora; ESTAMOS JUNTOS!

– Vamos sair daqui, do mesmo jeito que nós entramos mais cedo! JUNTOS, como você falou. – Rogues respondeu, segurando o ombro do amigo, muito, mas muito emotivo; não era para menos, não para menos mesmo.

– Sim! – Bedér respondeu com um “sim” expressivo, mas que tinha um tom evidente de mudança brusca de assunto; ele parecia não gostar muito de momentos carregados desse tipo de emoção. – Escolha logo alguma coisa que possa ferir o homem; ele pode voltar de repente; precisamos adiantar.

Rogues pegou uma faca amolada, que vira jogada abaixo da pia revestida de muita gordura, mas logo trocou por um pé-de-cabra, porque achou que a faca era muito pequena e o pé-de-cabra era afiado, comprido, lhe serviria melhor, absolutamente, e, além disso, era preto.

– Beleza, acho que estamos prontos. – disse Bedér, guardando uma faca pequena no bolso, a mesma que Rogues jogara fora.

– Algum plano? Alguma ideia? – Rogues segurou o pé-de-cabra com uma mão, e bateu com ele fortemente na palma da outra, a esquerda.

– Acertar o assassino! – era o seu único plano. – Se possível, antes que nos acerte, UFF! – Bedér expirou longo e vagarosamente.

– Boa id…

– QUEM ESTÁ AI?

 Texto escrito por Andrew Gomes

 

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