Havia muitos corvos negros à volta daquele terrível lugar afastado de tudo; suas penas eram escuras como um abismo profundo, mas brilhavam intensamente como se fossem envernizadas, uma a uma, pelas mãos sujas do artesão que morava lá. Que MORAVA lá.

O lugar, apesar de pequeno, era absurdamente desarrumado, como se fosse velho, tanto quanto as árvores que o rodeavam; pareciam esqueletos revestidos de lascas de pau, prontas a esfarelar; eram seus músculos ressequidos; eles jamais pulsariam vida.

O céu sobre aquela cabana era tão escuro quanto aqueles pássaros pretos, sincrônicos, que, na verdade, pareciam cobrir a atmosfera toda daquele sítio abandonado completamente; abandonado, porque não havia uma única pessoa morando naquelas bandas, cruzando a estrada velha, na beira da qual fora construída a terrível cabana malfeita, onde sabe-se lá que pessoa poderia morar nela agora, se é que morava alguém; ela estava cheia de baratas mortas, espalhadas por todo o fedido lugar, e que estavam sendo comidas pelas baratas que estavam vivas.

– Eu não consigo enxergar nada aqui – disse Bedér, dando tapinhas consecutivos na lanterna, que começava a querer falhar. Sua voz tremia ligeiramente, por mais medo que sentisse naquela hora. –, você tem mais pilhas no bolso, Rogues? – ele tirou o bocal da lanterna e sacou um par de pilhas velhas, que substituiria por novas, as que o amigo lhe entregaria, quando as achasse em um dos bolsos do moletom preto que usava para se camuflar.

– Toma – Rogues estregou as duas; eram novas, estavam soltas dentro do bolso direito. –, as únicas que temos para o resto da noite aqui dentro.

Rogues também segurava uma lanterna nas mãos; era preta, como todo o resto das coisas que estava usando, porque achava que assim, seria difícil para qualquer pessoa notar sua presença invasora naquela casa.

– Por que você está todo de preto, Rogues? – Bedér virou os olhos para cima e para a direita, deixando claro para o amigo que o seu vestuário era um enorme exagero para o que queriam fazer ali.

– Se aparecer alguém por aqui – ele olhou ao redor, mas não podia ver muita coisa; era muito escuro onde estavam. –, vai ser mais difícil me ver, ora bolas…, devia fazer o mesmo. – e olhou para o amigo, de baixo para cima, de cima para baixo, denotando sua enorme indignação em ver as roupas coloridas que Bedér usava; era como se ele claramente o chamasse de burro por se vestir com aquelas cores berrantes, naquela situação.

– Não há ninguém por aqui, seu idiota – os olhos de Bedér deram um “saque” no lugar inteiro. –, não precisa se camuflar… burro! – ele sussurrou a ofensa, para não começar uma briga, porque, além já sentir medo, ele não queria ter que ficar irritado.

– Eu sempre quis vir aqui, depois que passei pela estrada e vi esta terrível cabana velha – a expressão de Rogues era de animação; a de Bedér… bem, não havia qualquer expressão em seu rosto pálido de medo.

Do lado de fora, os corvos começaram a crocitar, invadindo o casebre velho com seus barulhos assustadores; os meninos se entreolharam, engolindo porções relevantes de cuspe; decerto, tentando engolir junto a elas, os seus medos mais emergentes.

– Nós deveríamos ir embora, Rogues – a “não expressão” de Bedér, se tornou sisuda e terrificada. –, devemos ir AGORA! – ao contrário da outra vez, ele enfatizou a palavra final que dissera, porque queria, de fato, sumir daquele lugar para SEMPRE.

– Já estamos aqui, seu medroso! – Rogues vasculhou numas prateleiras; elas estavam às suas costas, e ele as pudera ver depois que um rato, preto como ele, fizera um barulho nelas. – E como você mesmo falou, ninguém nos encontrará…, não? – ele pareceu muito irônico, como se tivesse guardado as palavras do amigo, para poder vomitá-las em sua cara, quando tivesse oportunidade; só que seriam palavras espessas, fedidas e ardentes; certamente elas feririam seu rosto; certamente elas feririam…

– Sim, nós estamos aqui – ele bufou indignado. –, só não sei se nós vamos sair… – e engoliu novamente a saliva; a garganta queimava de seca. –… vivos. – Bedér baixou a cabeça; foi quando ele pode ver, numa fresta pequena da porta, que parecia ser de um quarto, uma poça vermelha, que estava meio seca e meio fresca; ela ainda escorria para fora do aposento pequeno, quadrado e de paredes mofadas, se descascando; havia baratas nadando de bruços ali.

– ROGUES! – Bedér não gritou, mas chamou o amigo tão enfaticamente, que se pudesse escrever aquilo, seria com letras em caixa alta. – Ali! – e apontou a luz, azul claro, da lanterna pequena, que segurava nas mãos; ele a tremia incessantemente.

– O que f… – Rogues não pode concluir sua frase; depois que enxergou a enorme poça vermelha e recente cobrindo uma parte da casa velha, ele cobriu sua boca miúda, tapando-a com suas mãos pintadas com tinha escolar de cor preta.

– Vamos embora, irmão – Bedér deu uns passos pequenos para trás. –, POR FAVOR!

Era tarde para saírem dali; alguém parecia se aproximar; naquele silêncio infinito, os passos de uma terceira pessoa soavam altivamente.

– XI! – Rogues tirou a mão toda da boca e cruzou-a verticalmente com seu indicador estirado; ele pedia silêncio, mais silêncio ainda. – Acho que tem alguém lá fora; FICA QUIETO! – seu sussurro fora tão expressivo, que se fosse um grito, seria o grito mais estridente de todos.

As folhas da grama seca se desfaziam a cada passada que dava, a cada passada que dava, quem quer que estivesse lá fora. Elas se quebravam com facilidade, porque não chovia fazia um tempo.

A cada novo segundo dentro daquela alcova, porque era o que aquele lugar mais parecia ser, eles podiam ouvir passos grosseiros, advindo na direção da cabana; seus corpos tremiam de medo e eles não tinham ideia do que deveriam começar a fazer a partir dali.

Repentinamente, a porta dos fundos, torta, amarela, descascada e ruída, rangeu violentamente. Parecia ser alguém que conhecia o lugar, como se fosse sua própria casa, porque desconhecendo o que poderia existir no interior daquele lugar assombroso, ninguém entraria com tanta força quanto daquele jeito.

Bedér olhou para Rogues; ambos estavam um de frente para o outro no meio da escuridão profunda; pela primeira vez, pareceu ser sensato a Bedér, Rogues ter vindo de preto, TOTALMENTE vestido de preto. Se ele o pudesse fazer de igual modo, teria lançado por sobre si um enorme tonel de betume, para fazer que ficasse, além de preto completamente, mais ainda irreconhecível.

– XI! – Rogues fez o mesmo sinal para ele outra vez. – TUDO VAI DAR CERTO! – e à pouca luz da lua, que estava entrando por entre as janelas velhas, quebradas e sujas de tudo quanto era coisa, daquela casa mais velha ainda, Bedér pode ver sua boca gesticulando essas palavras vagarosamente e de novo, tentando acalmá-lo de todo. – VAI DAR TUDO CERTO!

Texto escrito por Andrew Gomes

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